Perda da audição e surdez
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A perda da audição é uma deterioração desta função. A surdez é uma perda auditiva profunda.
A perda da audição pode ser causada por um problema mecânico no canal auditivo ou no ouvido médio que obstrói a condução do som (perda condutiva de audição) ou por uma lesão no ouvido interno, no nervo auditivo ou nas vias do nervo auditivo no cérebro (perda neuro-sensorial da audição). Os dois tipos de perda da audição podem ser diferenciados comparando como uma pessoa ouve os sons conduzidos pelo ar e como os ouve conduzidos pelo ossos.
A perda auditiva neuro-sensorial denomina-se sensorial quando afecta o ouvido interno, e neural quando afecta o nervo auditivo ou as vias do nervo auditivo localizadas no cérebro. A perda auditiva sensorial pode ser hereditária, ser provocada por ruídos muito intensos (trauma acústico), por uma infecção viral do ouvido interno, por certos fármacos ou pela doença de Ménière. (Ver secção 19, capítulo 212) A perda auditiva neural pode ser causada por tumores cerebrais que também danificam os nervos circundantes e o tronco cerebral. Outras causas são as infecções, várias perturbações cerebrais e nervosas, como um acidente vascular cerebral, e algumas doenças hereditárias como a doença de Refsum. Na infância, o nervo auditivo pode ficar danificado pela parotidite, pela rubéola, pela meningite ou por uma infecção do ouvido interno. As vias do nervo auditivo no cérebro podem ser lesionadas pelas doenças desmielinizantes (doenças que destroem a bainha dos nervos).
Diagnóstico
Os testes auditivos com um diapasão podem ser feitos no consultório médico, mas a melhor forma de testar a audição é uma câmara insonorizada e com um audiometrista (especialista na perda da audição), utilizando um dispositivo electrónico que produz sons em tons e volumes específicos. A condução do som por via aérea nos adultos mede-se colocando um diapasão que esteja a vibrar perto do ouvido, com o fim de fazer o som viajar pelo ar até chegar ao ouvido. Uma perda de audição ou um limiar de audição subnormal (o menor som que possa ser ouvido) podem indicar a presença de um problema em qualquer parte do aparelho auditivo (o canal auditivo, o ouvido médio, o ouvido interno, o nervo auditivo ou os canais do nervo auditivo no cérebro).
Nos adultos, a audição por condução óssea mede-se encostando contra a cabeça a base de um diapasão que esteja a vibrar. A vibração propaga-se pelo crânio, incluindo o caracol ósseo do ouvido interno. O caracol contém células ciliadas que convertem as vibrações em impulsos nervosos, que se tranmitem pelo nervo auditivo. (Ver imagem da secção 19, capítulo 209) Este teste contorna o ouvido externo e o ouvido médio e avalia apenas o ouvido interno, o nervo auditivo e as vias do nervo auditivo no cérebro. Utilizam-se os diapasões com diversos tons (frequências) porque algumas pessoas podem ouvir sons a certas frequências, mas não a outras.
Se a audição por condução aérea estiver reduzida mas a audição por condução óssea for normal, a perda é condutiva. Se a audição por condução tanto aérea como óssea estiver reduzida, então a perda de audição é neuro-sensorial. Em certos casos, a perda de audição é tanto condutiva como neuro-sensorial.
A audiometria mede a perda de audição de forma precisa com um dispositivo electrónico (um audiómetro) que produz sons a frequências específicas (tons puros) e a volumes determinados. O limiar auditivo para uma variedade de tons é determinado pela redução do volume de cada tom até que a pessoa já não o possa ouvir. Sujeita-se um ouvido de cada vez a este teste. Para medir a audição por condução aérea utilizam-se capacetes, bem como um dispositivo vibratório aplicado contra o osso localizado por trás do ouvido (apófise mastóide) para medir a audição por condução óssea. Como os tons altos que se emitem ao pé de um ouvido também podem chegar ao outro, o teste de tons faz-se emitindo um som diferente, geralmente um ruído, ao pé do ouvido que não está a ser submetido ao teste. Desta forma, a pessoa ouve o tom do teste só no ouvido examinado.
O limiar de audiometria verbal mede em que tom têm de ser pronunciadas as palavras para serem compreendidas. A pessoa ouve uma série de palavras de duas sílabas acentuadas da mesma maneira (como clara, cama e casa) ditas em volumes específicos. O volume ao qual a pessoa pode repetir correctamente metade das palavras (limiar de repetição) é o que se regista.
A discriminação, a capacidade de ouvir as diferenças entre as palavras que soam de forma semelhante, testa-se pronunciando pares de palavras monossilábicas parecidas. O índice de discriminação (a percentagem de palavras repetidas correctamente) em geral encontra-se dentro de parâmetros normais quando a perda de audição é condutiva, é menor que o normal quando a perda de audição é sensorial e muito menor que o normal quando a perda de audição é neural.
A timpanometria, um tipo de audiometria, mede a impedância (resistência à pressão) do ouvido médio. Utiliza-se a fim de contribuir para determinar a causa da perda de audição condutiva. Este procedimento não requer a participação activa da pessoa examinada e normalmente utiliza-se nas crianças. Coloca-se no canal auditivo, de forma ajustada, um dispositivo que contém um microfone e uma fonte de som contínuo. O dispositivo detecta a quantidade de som que passa pelo ouvido médio e a quantidade que é reflectida à medida que se provocam alterações de pressão no canal auditivo. Os resultados deste teste indicam se o problema se deve a um bloqueio da trompa de Eustáquio (o tubo que liga o ouvido médio à parte posterior do nariz), à presença de líquido no ouvido médio ou a uma fractura na cadeia dos três ossículos que transmitem o som através do ouvido médio.
A timpanometria também detecta as alterações na contracção do músculo estapediano, que está ligado ao estribo, um dos três ossículos do ouvido médio. Este músculo, normalmente, contrai-se em resposta aos ruídos intensos (reflexo acústico), reduzindo a transmissão do som e protegendo assim o ouvido interno. O reflexo acústico altera-se ou reduz-se se a perda auditiva for neural. Quando o reflexo acústico diminui, o músculo estapediano não pode permanecer contraído durante uma exposição contínua a ruídos intensos.
A resposta auditiva do tronco cerebral é outro exame capaz de diferenciar entre a perda auditiva sensorial e neural. Mede os impulsos nervosos do cérebro que derivam da estimulação dos nervos auditivos. A amplificação, por computador, produz uma imagem do padrão de onda dos impulsos nervosos. Se a causa da perda auditiva parecer localizar-se no cérebro, pode-se fazer um exame de ressonância magnética (RM) à cabeça.
A electrococleografia mede a actividade do caracol e do nervo auditivo. Este exame e a resposta auditiva do tronco cerebral podem ser utilizados para medir a audição de quem não pode ou não quer responder voluntariamente ao som. Por exemplo, estes exames são utilizados para descobrir se os bebés e as crianças têm uma perda auditiva profunda ou, então, se uma pessoa está a fingir ou a exagerar a perda de audição (hipoacusia psicogénica). Por vezes, os exames podem ajudar a determinar a causa da perda auditiva neuro-sensorial. A resposta auditiva do tronco cerebral também pode ser utilizada para controlar certas funções cerebrais nas pessoas em estado de coma ou nas que são submetidas a uma cirurgia cerebral.
Alguns testes de audição podem detectar perturbações nas áreas de processamento auditivo do cérebro. Estes testes medem a capacidade de interpretar e de compreender a fala distorcida, de compreender uma mensagem apresentada a um ouvido quando outra mensagem está a chegar ao ouvido oposto, de ligar mensagens incompletas recebidas em ambos os ouvidos e formar uma mensagem coerente e de determinar de onde provém um som quando chegam sons a ambos os ouvidos ao mesmo tempo.
Como os canais nervosos de cada ouvido se cruzam para o outro lado do cérebro, uma anomalia num dos lados do cérebro afecta a audição no lado contrário. As lesões no tronco cerebral podem prejudicar a capacidade de ligar mensagens incompletas para formar uma mensagem coerente e determinar de onde provém o som.
Tratamento
O tratamento da perda auditiva depende da causa. Por exemplo, se a presença de líquido no ouvido médio ou de cera no canal auditivo está a causar perda de audição condutiva, o fluido é drenado ou então procede-se à eliminação da cera. No entanto, muitas vezes não há cura. Nestes casos, o tratamento consiste em compensar a perda auditiva na medida do possível. A maioria das pessoas usam um dispositivo de ajuda. Em situações excepcionais recorre-se ao transplante do caracol.
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A amplificação sonora que os dispositivos de audição oferecem são de grande ajuda para as pessoas que apresentam uma perda auditiva condutiva ou neuro-sensorial, particularmente se lhes custa ouvir as frequências da fala normal. Os dispositivos auditivos também são úteis para as pessoas que têm uma perda auditiva predominantemente neuro-sensorial de alta frequência e para quem tenha perdido a audição num só ouvido. Os dispositivos auditivos contêm um microfone para receber sons, um amplificador para aumentar o seu volume e um altifalante para transmitir os sons amplificados.
Os dispositivos auditivos de condução aérea, que costumam ser mais eficazes do que os de condução óssea, são os mais comummente utilizados. Em geral, são colocados dentro do canal auditivo com um fecho hermético ou um pequeno tubo aberto. Os tipos de dispositivos auditivos de condução aérea incluem os dispositivos corporais, os que se colocam por trás do ouvido, dentro do mesmo, ou no canal auditivo, os chamados CROS e os conhecidos como BICROS.
O dispositivo corporal, utilizado por pessoas que têm uma profunda perda auditiva, é o mais potente. Transporta-se no bolso da camisa ou então colado ao corpo e liga-se por meio de um cabo ao aparelho que se coloca no ouvido, que consta de um molde de plástico que se insere no canal auditivo. Os bebés e as crianças pequenas com perda de audição costumam usar dispositivos corporais porque são mais fáceis de manejar e correm menos riscos de se estragarem e, além disso, eliminam os problemas causados pelos aparelhos que encaixam mal no ouvido.
Para uma perda auditiva entre moderada e grave, pode ser colocado por trás de uma orelha um dispositivo que se liga a um molde auditivo por meio de um tubo flexível. Para uma perda auditiva entre ligeira e moderada, pode ser utilizado um dispositivo menos potente, completamente inserido no molde auditivo. Coloca-se no ouvido externo e é bastante discreto. Os dispositivos que encaixam completamente no canal auditivo (dispositivos de canal) são ainda menos visíveis e destinam-se a pessoas que doutra forma se negariam a usar qualquer outro dispositivo.
O dispositivo CROS (envio contralateral de sinais) é utilizado pelas pessoas que ouvem só de um ouvido. O microfone é colocado no ouvido que não funciona e o som é enviado para o ouvido que funciona através de um cabo ou de um radiotransmissor em miniatura. Este dispositivo permite ouvir sons pelo lado do ouvido que não funciona e, até certo ponto, permite localizar os sons. Se o ouvido que funciona também apresenta determinada deficiência, o som que provém de ambos os lados pode ser amplificado com o dispositivo BICROS (CROS bilateral).
Um dispositivo auditivo de condução óssea pode ser utilizado por pessoas que não podem usar os de condução aérea. Por exemplo, alguém que tenha nascido sem o canal auditivo ou que possua uma secreção líquida no ouvido (otorreia). O dispositivo é colocado em contacto com a cabeça, em geral mesmo por trás do ouvido, com uma fita elástica sobre a cabeça. O dispositivo conduz o som através do crânio até ao ouvido interno. Os dispositivos auditivos de condução óssea necessitam de maior potência, provocam maior distorsão e são menos cómodos do que um dispositivo de condução aérea. Alguns dispositivos de condução aérea podem ser implantados cirurgicamente no osso que se encontra por trás do ouvido.
O dispositivo de audição deve ser escolhido pelo médico ou aconselhado pelo protésico auditivo, que se encarrega de adaptar as características do dispositivo ao tipo de perda auditiva, incluindo o grau de perda e as frequências afectadas. Por exemplo, as altas frequências podem ser aumentadas por meio de aberturas no molde que se coloca no ouvido, para facilitar a passagem das ondas sonoras. Os dispositivos com estas características beneficiam muitas pessoas cuja perda auditiva neuro-sensorial é maior para as altas frequências do que para as baixas. As pessoas que não podem tolerar os sons fortes podem necessitar de dispositivos com circuitos electrónicos especiais que mantêm o volume a um nível tolerável.
Existem vários tipos de dispositivos para as pessoas que têm uma perda auditiva muito importante. Os sistemas de alerta com luz permitem-lhes saber quando estão a tocar à porta ou quando um bebé está a chorar. Os sistemas de som especiais ajudam-nas a ouvir nos cinemas, nas igrejas e em muitos outros lugares em que há bastante ruído. Também existem dispositivos que permitem a comunicação por telefone.
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2 - Implantes Cocleares
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A pessoa profundamente surda, que não pode ouvir nem sequer com um dispositivo de ajuda, pode melhorar com um implante coclear. O implante consiste numa série de eléctrodos que se inserem no caracol e numa espiral interna que se implanta no crânio. Além disso, consta de uma espiral externa, de um processador de palavras e de um microfone localizado fora do corpo. O microfone recolhe as ondas sonoras e o processador converte-as em impulsos eléctricos, que são transmitidos pela espiral externa através da pele até à espiral interna e dali para os eléctrodos. Os eléctrodos estimulam o nervo auditivo.
O implante coclear não transmite sons tão bem como um caracol normal, mas a sua utilidade varia conforme as pessoas. A algumas ajuda-as a ler os lábios. Outras, podem distinguir algumas palavras sem ler os lábios. Algumas pessoas podem manter uma conversa por telefone.
O implante coclear também ajuda os surdos a ouvir e a distinguir os sinais ambientais e de precaução, como as campainhas, os telefones e os alarmes. De qualquer modo, ajuda-os a modular as suas próprias vozes de modo que as suas palavras possam ser compreendidas mais facilmente. O implante coclear é mais eficaz numa pessoa cuja perda de audição é recente ou que utilizou com êxito um dispositivo auditivo antes do implante.
Implante coclear: um dispositivo para pessoas com surdez profunda
O implante coclear, um tipo de dispositivo auditivo para as pessoas profundamente surdas, é formado por uma espiral interna, eléctrodos, uma espiral externa, um processador de palavras e um microfone. A espiral interna é implantada cirurgicamente no crânio, por trás e acima do ouvido, enquanto os eléctrodos são implantados no caracol. A espiral externa mantém-se imóvel graças a ímanes colocados na pele sobre a espiral interna. O processador de palavras, ligado à espiral externa por meio de um cabo, pode ser transportado num bolso ou numa bolsa especial. O microfone é colocado no dispositivo de audição localizado por trás da orelha.
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